
Guzovsky
A alvorada já brilha ao oriente da cidade velha de Jerusalém. É um daqueles dias frios, algumas pessoas pelas ruas, turistas despenteados parados, fumando com suas malas em prontidão a espera do monit sherut que os leva para o aeroporto e como não, o monit sherut dirigido por um marroquino que leva muito a sério seu trabalho e que neste momento voa pelo centro em busca do Sr. Bobby Goldenberg, que parece ter cometido terrível equivoco por haver deixado o telefone de sua ieshiva como telefone de contato. O pior de tudo é que ninguém atendia no número informado. O motorista o encontra na hora marcada e no ponto marcado. Pobre Sr. Bobby. Ele simplesmente não tinha um telefone próprio, vive em comunidade, na ieshiva. Mal sabe disso o motorista, não lhe interessa.
- As regras são feitas para serem bem cumpridas. Por que você me dá um telefone aonde não pode ser encontrado? - recebe o motorista e o olha com um olhar mortífero, como se aquele incidente fosse símbolo de falta de respeito e colocasse em jogo o sucesso de sua operação de coleta, transporte e entrega de material humano para as embarcações aéreas civis. No entanto ele foi doce, permitiu que o atrasado se acomode e feche a boca.
Naquele mesmo momento, toca o sino na escola, ou algo que se parecia com uma escola pelo menos, e se escutam os gritos e a movimentação, os ônibus verdes já são mais presentes e trazem as pessoas para seus lugares. A cidade começa a acordar de verdade, o sol traz luz, mas as pessoas trazem as cores. Acordo. Escuto um microfone defeituoso que chia terrível pois parece ter sido colocado ao lado de um celular, o som para, fico reconfortado depois de um desespero instantâneo. As caixas de som voltam a funcionar, o microfone agora fala:
- Alláhu Akbar. Alláhu Akbar...
Repete, infinitamente. É hora da oração, hora de se levantar. Tomo meu tempo, faz frio. Agarro meus óculos e dou-lhes uma bela baforada para limpar suas lentes. Amareladas, assim eram as lentes. Depois de tantos anos usando-as, já não estranho. São apenas óculos.
- Alláhu Akbar. Alláhu Akbar...
Segue, forte, crescente. Me levanto da cama e me limpo propriamente. A limpeza é sempre muito importante. Visto-me parcialmente, deixo de lado o Hijab. Me preparo e começo as orações da manhã.
- Máleki yaom´edinn...
O som não para. Rezo, rezo forte, com amor. Uma hora aproximadamente, longo. Nada como uma boa manhã de meditação para começar bem o dia. Tenho fome e preparo um sanduíche. Tomo um café turco bem doce. Um belo café da manhã. Não tenho pressa hoje, diferente dos outros dias. Tomo meu tempo, sigo refletindo a respeito da minha missão neste mundo e encontro sempre a mesma resposta, sempre a mesma coisa, a reflexão não adianta muito por que me lembro que já me havia decidido há algum tempo e que seria hoje. Louvo a D´us e me levanto. Agarro o hijab que antes havia deixado de lado e me visto. Agarro a mochila que me haviam deixado há dois dias e abro novamente. Há peças de metal e uma bolsa grande de nylon com forro, macia e fofinha. Agarro as peças e monto como diz a instrução, são alguns encaixes apenas, coisa fácil. Coloco tudo isso na bolsa de nylon e levanto o hijab na altura dos peitos, amarro-a minha barriga e deixo a bata cair por cima. Como pesa essa porcaria. Já a havia usado com as peças desmontadas, quando cheguei ao alojamento, vim com a mesma roupa.O alojamento fica a algumas quadras do Monte do Templo e do Santo Sepulcro. Um péssimo lugar com uma ótima localização. Saio sem pressa, incógnito, pago ao gerente que gentilmente me abre a porta e me cumprimenta pelo bebe. Não abro a boca, mantenho a distância adequada. Como já disse, faz frio em Jerusalém nessa época do ano. Não sou de Jerusalém, venho da Faixa de Gaza, lá é muito mais quente. Vim em ônibus de linha israelense, protegido, não tive nenhum problema na fronteira, não trazia nada suspeito, recebi tudo no ponto marcado, dentro de um depósito no centro da cidade de Jerusalém, perto de Nachlaot. Caminho pelas ruas sem nenhuma dificuldade. Por todo o caminho compenetrado, a atenção não se desvia nem mesmo para todas aquelas coisas penduradas para enfeitiçar turistas e pobres consumistas. Não sinto o peso, já disse, estou compenetrado. Penso nas guerras, penso na injustiça, penso nos mortos, penso nas vidas que perdemos por causa desses malditos. Penso em tanta coisa... São nossos inimigos mortais e devem sofrer a conseqüência de seus atos de violência contra nossas famílias. Não há caminho para a paz com esse povo. Penso em D´us, louvo baixo, bem baixo. Penso e ganho forças para seguir meu caminho, vejo sentido na minha missão.
Passo o posto de checagem policial israelense, sem problemas, não checam a mulheres muçulmanas neste posto. Entro e sinto o remorso agarrando meu pescoço e tratando de sufocar minhas intenções. Alguma razão veio a mim quando vi aquelas crianças. Me lembro do futuro. Chego ao ponto combinado, no centro. Acho que não consigo completar a missão. Agarro o controle no bolso. Me arrependo profundamente. Tiro o pano que cobria minha cara, respiro fundo e vejo o monte de lápides, o palco da redenção. Penso novamente, olho para cima e estou debaixo da grande luz. Eles assassinaram meu futuro. Raiva. Tenho raiva e grito mais forte que qualquer microfone:
- Shemá Israel.
Tomo fôlego e aperto o botão laranja.
E Israel escutou. Mais forte que qualquer microfone.
Como na profecia, a cúpula dourada se ergue pelos ares. Mas não há mashiach, não há mashiach...

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