Não quero repetir aqui o que Pilar diz, nem o que foi abordado nesse debate, mas sim colocar alguns questionamentos que durante esses eventos vieram a minha cabeça jovem.
O primeiro, é a questão da modernidade e da democracia. O pensamento de Pilar segue uma linha de defesa da democracia. Israel é a ilha de democracia e modernidade no Oriente Médio. Acho tudo isso muito bonito, mas pergunto: Seria o sistema democrático neoliberal, representante da modernidade o sistema que realmente deve ser defendido? Esse sistema excludente que é claramente falho e cuja única certeza que temos em relação a ele é que certamente um dia será ultrapassado?
Os países árabes têm reis ditadores, que certamente não são nada bem vistos, mas será que a globalização neoliberal é realmente melhor e mais justa?
Quando escutamos Pilar, como temos uma cabeça ocidental, vemos a democracia como o sistema ideal. Mas será que o pensamento oriental não vê esse sistema ocidental como algo que trás a infelicidade e a exclusão social, como realmente o faz no nosso mundo?
Não defendo nenhum desses dois sistemas. A ditadura, pelo seu fanatismo religioso. A globalização, pelo seu fanatismo comercial. (Vocês conhecem muito bem as empresas que querem que seus funcionários sejam verdadeiros fanáticos pelo lugar que trabalham e todas aquelas baboseiras de endomarketing – marketing para os funcionários – que transformam as empresas em verdadeiras igrejas).
Seria então essa modernidade o ideal? Caminhamos no caminho certo mesmo para que possamos querer que todo o mundo siga nossos moldes?
O mundo é igual? As pessoas são iguais? Aprofundo mais: O mundo quer ser igual? As pessoas querem ser iguais?
Nos últimos anos vemos que as pessoas cada vez mais estão se fechando dentro de suas comunidades para tentar de alguma maneira manter suas monoidentidades, que neste mundo moderno e globalizado estão cada vez mais se diluindo. A comunidade judaica mesmo, só segue funcionando, por que temos diferenças e queremos manter nossas diferenças.
A globalização ao mesmo tempo em que nos une cada vez mais, traz aos seres humanos um certo instinto de autoproteção que faz com que queiramos nos fechar cada vez mais dentro de nossas tradições e costumes.
Não teriam então o direito os árabes muçulmanos de manterem essa identidade fanática, fruto das conquistas de Mohamed? Não teriam eles o direito de recusar a modernidade e querer viver com base na idade média? Afinal de contas, a idade média foi a idade das trevas realmente? – levamos esse preconceito com relação a época desde os iluministas e a pregação da razão.
De todos os meus questionamentos, só pude chegar a uma conclusão, que a democracia é um avanço de fato. Não o sistema político econômico que a segue, por que este é regido por diversas burocracias que nos colocam dentro de um cárcere de ferro (como já disse Weber) que nos impedem de realmente colocar em prática essa democracia e dão mais poder a aqueles que já usufruem desse poder, mas a idéia de que todos os seres humanos têm o direito de pensar e reivindicar aquilo que pensam. E que aquilo que a maioria quer, é aquilo que será defendido por todos como estado nação. A idéia de igualdade e liberdade.
Meu segundo questionamento vêm da maneira como se comporta a intelectualidade árabe em todo o mundo. Acredito que existem grandes cabeças dentro da comunidade árabe espalhada por todo o mundo. Mas não consigo entender uma coisa que me deixa bastante intrigado. Por que essas cabeças são contra Israel?
Sigam meu raciocínio: Esses intelectuais nasceram em países livres e democráticos, países aonde puderam desenvolver esse grau de liberdade de expressão e raciocínio, um grau de conhecimento científico que nunca em países cujo fanatismo islâmico segue vigente conseguiriam formar a não ser que tivessem algum alto cargo, que significa muito dinheiro.
Então por que não encarar Israel como um aliado para a propagação da democracia no seu país de origem? Por que não encarar Israel como um berço Oriental para essa modernidade que tanto gostam e usufruem no Ocidente?
Digo isso, por que das muitas intelectualidades árabes que tenho lido e escutado, a imensa maioria entende e admite que a situação política no seu país é ruim e por isso não volta para lá e por isso seus progenitores saíram de lá algum dia. Mas quando falam de Israel e Palestina, defendem com unhas e garras o direito Palestino por um Estado. Colocam Israel como o maior inimigo do povo árabe e não procuram ver Israel como um aliado. Um aliado para trazer essa modernidade para a região. Herzl já dizia, quando lhe perguntavam: “Mas e a população local? Como irão se adaptar ao mundo ocidental?” : “Não se preocupe, a modernidade européia ira se propagar por toda o Oriente Médio, vamos trazer a civilização para os não civilizados”. Parece que Herzl se enganou. A Europa não fez sucesso no Oriente e acabou se tornando bode expiatório para interesses econômicos de sultões da região.
Na minha opinião, a paz na região só virá quando essa intelectualidade árabe, que tem real influencia sobre a população, possa pensar em Israel como aliado do sistema que tanto sonham para seus países mães e não com o sentimento de mágoa que carregam contra o povo judeu, personificado em seu país, Israel. (fruto de pura e complexa política cultural)
Só para constar, venho dizer que um estado regido pelo fanatismo cristão ou mesmo o judaico, teria os mesmos problemas e efeitos que os estados regidos pela intolerância muçulmana. Exemplos como a inquisição na Espanha e colonizadores na América, são exemplos de fanatismos do cristianismo. O povo judeu não teve chance de propagar seu fanatismo religioso na era moderna, mas tenho minhas dúvidas que se o pudesse, não o faria. Entendo que possa parecer polêmica essa visão, mas acredito que temos que entender que qualquer tipo de fanatismo é prejudicial, inclusive o nosso.
Não respondo metade de minhas perguntas. Acho que não tem uma resposta única. Cada um de vocês deve sentar-se e pensar a respeito. Pensar o que deve ser feito, como deve ser feito, quem o deve fazer. Mas principalmente fazer aquilo que pensa, tomar uma iniciativa e mudar o mundo em que vive para melhor. Por que todos nós (árabes, cristãos e judeus) temos um único mundo que nos foi dado por um único D´us e devemos cuidar dele como uma família deve cuidar da sua casa apesar da diferença entre seus indivíduos.
21.05.2004 - Guzovsky
la cabeza caballo - una otra vision. Peça criada por mim para exposição ILUMINAR da FAAP. fevereiro de 2004.

Guzovsky
