Isso mesmo, meu ombro esquerdo. Cienfuegos e eu nos conhecemos em Burzaco, uma cidadezinha perto de Ezeiza, nos arredores de Buenos Aires. Como todo bom argentino do campo, Cienfuegos festejava o ano novo na mesma casa que toda a juventude da região, ao frenético som de Los Piojos, uma incrível banda de rock em espanhol. Nem todos conseguem ver Cienfuegos, apenas os inteligentes, modéstia parte, acho que fui o único que notei a presença daquela pequena figura pitoresca, judaica (vi logo pela kipa na cabeça), do tamanho de um celular, dançando rock em forma de harkadá. Me juntei na hora e acabamos juntando um pessoal ao ritmo da dança israeli, pura diversão.
Ano novo em Burzaco, logo estava indo para Buenos Aires e lá estava Cienfuegos, em minha companhia. Ao menos, tive um guia para conhecer a cidade, seus segredos e as melhores baladas, embaixo de uma ponte, perto de uma praça, todos com nomes de presidentes, generais e coronéis (típico na América do Sul). Conheci a Casa Rosada e a sua guarda presidencial, que imita perfeitamente a guarda real britânica. Foi um lindo passeio. Cienfuegos me levou a sua sinagoga, em Palermo, um bairro de Buenos Aires. O serviço religioso foi muito bonito, bastante parecido com o que temos aqui em nossas congregações e sinagogas, porém, a bitachon era muito maior, a neurose era muito maior. Todos tinham medo de que algo acontecesse, medo de andar de kipá nas ruas, medo do anti-semitismo, medo da xenofobia que já estava tomando conta do país a tempos (todos, menos Cienfuegos, que estranhamente não tinha medo de ser notado). Falo isso, antes mesmo da crise tomar uma face tão horrenda. Um peso ainda valia um dólar, mas a insegurança já começava a tomar conta do cenário argentino. Imagina então quando o argentino que dormia com 1000 pesos na sua conta que equivalem a 1000 dólares, dívidas em dólar e com um emprego fixo, acorda com 1000 pesos desvalorizados que agora valem 500 dólares, as mesmas dívidas em dólar e insegurança no seu emprego, uma vez que muitas empresas terão que demitir, pois perderam recursos financeiros da mesma maneira que ele. Dá pra imaginar cenário econômico pior? O cenário ideal para o crescimento do anti-semitismo, da xenofobia, do nacionalismo doentio. Hitler subiu ao poder após a República de Weimar, com desemprego, fome e moeda desvalorizada na Alemanha, resultado do Tratado de Versailes – humilhação Alemã no cenário político mundial pós-primeira guerra mundial. Na Argentina, partidos neonazistas estão ressurgindo e conseguindo a adesão de um considerável número de cidadãos que vêem na ideologia nazista uma única saída para o seu sofrimento, uma justificativa para anos e anos de incompetência político-econômica.
Foi nesse contexto que Cienfuegos resolveu vir para o Brasil. Com medo, medo de novamente ser feito de bode expiatório para os problemas de sua nação por sua condição judaica. Assim como Cienfuegos, milhares na comunidade Argentina estão deixando o país, isso não é de agora, eles sempre foram em número maior para eretz, mas certamente o número de aliot está crescendo nesses últimos tempos.
>>cienfuegos é argentino e vive no Brasil. Pensa em fazer alia, mas não sabe bem ainda... se acha muito pequeno e tem medo de ser pisado por sabras apressados.


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