sexta-feira, setembro 27

.:: Argentina 2002

Nosso irmão latino-americano se encontra em estado de sítio. O caos econômico tem tomado conta do cenário político portenho. Os porquês da crise, seus resultados, todos já devem saber ou fazer idéia. Venho hoje lhes falar acerca de um caso em particular, de um amigo, Argentino, residente ilegal no Brasil. Seu nome: Cienfuegos. Seu endereço: Meu ombro esquerdo.

Isso mesmo, meu ombro esquerdo. Cienfuegos e eu nos conhecemos em Burzaco, uma cidadezinha perto de Ezeiza, nos arredores de Buenos Aires. Como todo bom argentino do campo, Cienfuegos festejava o ano novo na mesma casa que toda a juventude da região, ao frenético som de Los Piojos, uma incrível banda de rock em espanhol. Nem todos conseguem ver Cienfuegos, apenas os inteligentes, modéstia parte, acho que fui o único que notei a presença daquela pequena figura pitoresca, judaica (vi logo pela kipa na cabeça), do tamanho de um celular, dançando rock em forma de harkadá. Me juntei na hora e acabamos juntando um pessoal ao ritmo da dança israeli, pura diversão.

Ano novo em Burzaco, logo estava indo para Buenos Aires e lá estava Cienfuegos, em minha companhia. Ao menos, tive um guia para conhecer a cidade, seus segredos e as melhores baladas, embaixo de uma ponte, perto de uma praça, todos com nomes de presidentes, generais e coronéis (típico na América do Sul). Conheci a Casa Rosada e a sua guarda presidencial, que imita perfeitamente a guarda real britânica. Foi um lindo passeio. Cienfuegos me levou a sua sinagoga, em Palermo, um bairro de Buenos Aires. O serviço religioso foi muito bonito, bastante parecido com o que temos aqui em nossas congregações e sinagogas, porém, a bitachon era muito maior, a neurose era muito maior. Todos tinham medo de que algo acontecesse, medo de andar de kipá nas ruas, medo do anti-semitismo, medo da xenofobia que já estava tomando conta do país a tempos (todos, menos Cienfuegos, que estranhamente não tinha medo de ser notado). Falo isso, antes mesmo da crise tomar uma face tão horrenda. Um peso ainda valia um dólar, mas a insegurança já começava a tomar conta do cenário argentino. Imagina então quando o argentino que dormia com 1000 pesos na sua conta que equivalem a 1000 dólares, dívidas em dólar e com um emprego fixo, acorda com 1000 pesos desvalorizados que agora valem 500 dólares, as mesmas dívidas em dólar e insegurança no seu emprego, uma vez que muitas empresas terão que demitir, pois perderam recursos financeiros da mesma maneira que ele. Dá pra imaginar cenário econômico pior? O cenário ideal para o crescimento do anti-semitismo, da xenofobia, do nacionalismo doentio. Hitler subiu ao poder após a República de Weimar, com desemprego, fome e moeda desvalorizada na Alemanha, resultado do Tratado de Versailes – humilhação Alemã no cenário político mundial pós-primeira guerra mundial. Na Argentina, partidos neonazistas estão ressurgindo e conseguindo a adesão de um considerável número de cidadãos que vêem na ideologia nazista uma única saída para o seu sofrimento, uma justificativa para anos e anos de incompetência político-econômica.

Foi nesse contexto que Cienfuegos resolveu vir para o Brasil. Com medo, medo de novamente ser feito de bode expiatório para os problemas de sua nação por sua condição judaica. Assim como Cienfuegos, milhares na comunidade Argentina estão deixando o país, isso não é de agora, eles sempre foram em número maior para eretz, mas certamente o número de aliot está crescendo nesses últimos tempos.

>>cienfuegos é argentino e vive no Brasil. Pensa em fazer alia, mas não sabe bem ainda... se acha muito pequeno e tem medo de ser pisado por sabras apressados.

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