Inércia cômoda x Prazer do conhecimento
Em um dia desses, durante o mês de agosto, estava assistindo ao garboso programa do ilmo. Jô Soares na Rede Globo, quando o mesmo começou a “tirar sarro” de um pequeno garoto na platéia que batia palmas de forma esquisita, peculiar, engraçada. Realmente, as palmas do garoto eram totalmente fora dos padrões convencionais. As mãos se encontravam na vertical (Ao contrário do padrão horizontal), ele batia dedos com dedos (ao invés de palma com palma) e pra completar (e pra delírio geral da galera) ele ainda dava um sacolejo/molejo ao estilo “chug de palmas” (quem não sabe o que é isso pergunte para algum magshim) com todo o tronco. Era um show de bola! Hilário!
Neste momento, comecei a reparar uma coisa: Mas que ritual mais esquisito é esse de bater palmas? Já é engraçado suficiente imaginar centenas de pessoas juntas batendo suas mãos para ecoar um som. Se você parar pra pensar, é um costume muito estranho, mas temos que admitir uma coisa: É contagiante.
Os aplausos foram criados (não se sabe quando, mas provavelmente devem ter sido criados com a invenção do teatro na Grécia com esse intuito – lógico que me refiro ao hábito de se bater palmas como forma de elogio. O homem já devia bater palmas desde bem antes, desde que já tinha mãos e palmas para se bater) para demonstrar a admiração coletiva de um determinado grupo, a platéia, a determinada ação de um outro indivíduo. Mas cuidado! Não é sempre assim! Às vezes batemos palmas por inércia.
Você se lembra daquela peça de teatro horrorosa, mal feita, que nem você e nem ninguém ao seu redor entendeu? Agora você se lembra que todos bateram palmas, inclusive você? Você dormiu durante toda a apresentação, acordou com o barulho das palmas, levantou, aplaudiu e ainda gritou todo contente: “Bravo! Bravo! Bis!”.
Se as palmas devem simbolizar a admiração e concordância e você não gostou da peça, por que você bateu palmas? Você se encontrou em uma situação de massas. Todos estavam aplaudindo, você não, você se sentiu excluído/fora do grupo, sentiu a necessidade então de bater palmas. Os homens, quando se encontram em bandos, cometem loucuras que jamais cometeriam sozinhos. Aquelas centenas de palmas vieram por inércia, iniciadas por meia dúzia de pessoas que gostaram, compreenderam e aceitaram as idéias da peça. Quando são apenas palmas, tudo bem, ninguém se feriu, só os próximos idiotas que irão pagar pra ver aquela porcaria. Mas quando essa loucura se expande para o campo político, religioso, etc... Pode se tornar muito perigosa.
Aceitamos as coisas por inércia, batemos palmas para tudo e nos olvidamos da nossa própria opinião. Quanto menor o conhecimento humano, maior a inércia com que ele vive no mundo, mais cômodo ele é aos fatos que o rondam.Roger Shattuck, a partir dos escritos de Milton – um grande poeta inglês do séc. XVII, afirma que o pecado original de Adão e Eva não é a luxuria, como muitos costumam interpretar, mas sim o conhecimento. O homem sem conhecimento vive na inércia, na comodidade do paraíso. A partir do momento em que ele se questiona e começa a conhecer melhor o mundo e querer mudar, ele passa a ver com outros olhos a realidade. Acabou o paraíso, não há mais beleza em tudo, o feio existe. O conhecimento expulsou o homem do paraíso da inércia para o inferno da ciência, da opinião e da crítica.
Lembre-se: Nunca bata palmas apenas por que os outros estão batendo. Faça valer a sua opinião, mantenha-se firme a ela. Procure conhecer e compreender antes de bater suas palmas e endossar aquela opinião. D´us quis que saíssemos do paraíso, que saíssemos da inércia, por algum motivo. Não fique no paraíso da consciência inerte.
sexta-feira, agosto 10
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